Contatos Imediatos de Quinto Grau

A gente recebia o pagamento sempre na primeira sexta-feira do mês, em cash, na mão. Saía do trabalho, de banho tomado, bolsa a tiracolo, para o escritório do patrão. Recebíamos a grana, assinávamos um recibo e girando nos calcanhares, seguíamos para o bar do Balboa – o cara tinha os olhos caídos e a boca torta – beber cerveja e jogar sinuca e conversa fora. E é claro, em bar sempre tem uma garota ou outra que bebe junto com a rapaziada, quanto mais em dia de pagamento.

Minha mulher nunca gostou que eu jogasse sinuca no Balboa nos dias de pagamento, é evidente que ela desconfiava de minhas puladas de cerca: mexia em meu celular, vasculhava em meus bolsos, fazia a mesma pergunta várias vezes (talvez para me pegar em contradição), mas eu nunca dei mole para ela, até aquela fatídica manhã de sábado.

Naquele dia miserável, eu fui para o bar como de costume, bebi minhas cervejas, joguei sinuca e depois estiquei com a Carlinha para a quitinete dela, bem próximo ao centro. Ela não era garota de programa, por assim dizer, mas sempre que eu ia embora, pedia um troco para comprar um leite para o garotinho dela, cujo pai havia abandonado.

Dispensa comentários sua performance sexual. Como ela precisava sempre de uma grana a mais que seu emprego não podia proporcionar, ela precisava ganhar a gente de alguma forma. A gente, eu não era ingênuo para acreditar que era o único a chegar junto ali.

Pois bem, na noite do pagamento, fomos para sua quitinete, esquentamos uma pizza semipronta no forno e bebemos, em copos de requeijão, uma sangria de vinho que ela guardava pela metade no refrigerador. Misturada com a cerveja do bar, foi tiro certo: após o sexo, desabei ao seu lado e dormi feito um menininho até o dia seguinte.

– Puta que pariu! – levantei sobressaltado, vestindo as calças rapidamente. Custei a encontrar a camisa, os tênis estavam sob a cama.

– O que foi? - perguntou a Carlinha se espreguiçando.

– Como o que foi? Nós dormimos!

– Relaxa, safado!

– Como assim relaxa? O que eu vou dizer para minha mulher?

– Ora, dê uma desculpa qualquer. – respondeu ao se levantar, completamente nua, a bunda impecavelmente redonda.

– Passar uma noite fora exige mais do que uma desculpa qualquer. – retruquei pegando a bolsa e seguindo para a porta. – Porra! E teu garoto? Ele vai me ver!

– Ele dormiu na minha mãe, esqueceu? Além do mais, não seria a primeira vez que ele o veria.

– Tchau… – despedi-me mandando um beijo negligente e desdenhoso, apenas como protocolo. Toquei a mão na maçaneta e ela foi rápida no gatilho.

– E por falar no Juninho… tem como você deixar uma graninha? É que… o leite dele acabou e eu não recebi ainda… – pediu com cara de choro, como estratégia de persuasão. Tirei uma nota de vinte do bolso e entreguei.

– Acha que é suficiente? - perguntei com metade do corpo através do portal.

– É sim… – respondeu-me com o olhar agradecido. Ato contínuo, abraçou-me e tocou minha boca com seus lábios carnudos, roçando a cálida língua na minha. – Boa sorte com a sua mulher! – concluiu num sorriso e eu saí. 

Boa sorte com a sua mulher… Ela queria mais é que eu me fodesse, isso sim. Não me admira se ela tivesse me oferecido o vinho de propósito, para que eu dormisse. Segui meu caminho até o ponto de ônibus e durante minha viagem para casa, pensando no que eu poderia dizer para me safar dessa e nada me parecia plausível. Nada, nada mesmo. Eu poderia dizer que havia dormido na casa de um amigo, pois tinha bebido demais, que caí de bêbado na sarjeta, que não me lembro exatamente de nada… mas qualquer coisa que eu dissesse parecia denunciar a minha traição. E talvez uma desculpa plausível não fosse exatamente o mais adequado numa situação tão específica. Talvez o ideal fosse simplesmente uma desculpa qualquer, como Carlinha havia sugerido, e ela que acatasse. Insistir para que acreditasse na história seria assumir a própria culpa; eu contaria o que  aconteceu e ela que engolisse, caso contrário eu me faria de chateado e não dava mais explicações, afinal, quem mais se explica, mais se enrola.

Abri a porta vagarosamente, tentando não chamar muito a atenção – ainda ia bater oito da manhã – mas encontrei Lavínia encostada na mesa, os braços cruzados, os olhos vermelhos de quem chorou.

– Onde você estava? - perguntou de pronto.

– Lavínia? Você já está de pé? – perguntei apenas para pensar em alguma coisa, eu ainda não tinha certeza do que falaria, e a eloquência com que eu conduziria o discurso faria toda a diferença.

– Eu não dormi. Onde você esteve? – insistiu na pergunta, a voz fria como mármore.

– Oh, Lavínia, você não vai acreditar… – comecei o teatro, deixando a bolsa no chão e afundando o rosto nas mãos. Minha boca ainda estava amarga pela bebida, a saliva grossa e a mente vazia. Aliás, nem tão vazia assim: as ideias voavam de um lado para o outro, como naves espaciais em um espaço negro e silencioso e eu não sabia quem escolher. E foi aí que surgiu a ideia mais estúpida de toda minha vida.

– Não vou mesmo, mas pode começar. – disse com autoridade. Ignorei o comentário e continuei minha justificativa.

– Você sabe, ontem era o dia do pagamento. Saí do trabalho e fui para o escritório, recebi a grana e dei um pulinho no Balboa para tomar uma cerveja e vir logo para casa. Eu estava bastante cansado, o dia foi duro.

Bebi três cervejas, me despedi dos meus amigos e segui a pé, saindo da Augusto Cardoso para a Eugênio Muller, para pegar o ônibus na rodoviária de integração; a Alberto Braune estava muito cheia e eu não queria passar por lá. Andei por cerca de uns cinquenta metros e então o improvável aconteceu: senti uma forte luz sobre mim, a ponto de me ofuscar, deixando-me temporariamente cego, e meu corpo foi se tornando leve, leve… e eu comecei a levitar.

Acho que fiquei desacordado, pois quando acordei eu estava nu, em uma espécie de maca metálica e vários seres humanoides estavam em torno de mim, com equipamentos que eu nunca vi na vida.

– Você quer dizer que foi abduzido? – perguntou franzindo o cenho e pondo a mão à frente da boca.

– Eu sei que é tudo muito fantasioso, mas você precisa acreditar em mim! – insisti, fazendo brotar lágrimas nos olhos. Continuei, com a voz levemente embargada, e desviando o olhar de Lavínia – nenhuma mentira resiste a um olhar profundo.

Eles pareciam me examinar: colaram ventosas em minha pele, semelhantes as de uma máquina de eletrocardiograma; olharam em meus ouvidos e boca e então, prenderam meus pulsos e pernas e a seguir se afastaram. Logo após se aproximou de mim uma alienígena com formatos femininos e subiu em cima de mim para copular. Eu gritava que não, que era casado, que não podia fazer aquilo, mas ela não me deu ouvidos. Tudo fazia parte de um plano macabro para criar uma raça híbrida que dominaria nosso planeta.

Após o coito, ela saiu de cima de mim, e meus braços e pernas se soltaram. Me fingi de morto e numa distração deles, peguei minhas coisas e fugi. Não sei ao certo onde eu estava, nem por quanto tempo caminhei, só me lembro do dia amanhecendo, no centro da cidade novamente, e então eu fui para o ponto de ônibus e vim para casa.

– Quer dizer então que você foi abduzido e transou com uma alienígena para criar uma raça híbrida?

– Foi horrível… – concluí chorando e então ela se aproximou e me abraçou. Continuei chorando, balbuciando que ela perdoasse minha traição, mas que eu não tivera culpa, coisa e tal. Ela enxugou minhas lágrimas e me beijou.

– Não fique assim, amor, está tudo bem. Vá tomar um banho para descansar um pouco, você deve estar exausto. – disse com serenidade, surpreendendo-me. A história era tão espetacular que nem eu mesmo acreditava que ela a absorvera com tanta facilidade. Mas continuei minha performance: tomei um banho e deitei um pouco. Aquele sábado foi tranquilo como nenhum outro, e Lavínia se mostrava cada vez mais carinhosa, a cada dia que se passava.

As horas, dias e semanas seguiram, e eu me cuidando para não perder mais nenhum ponto, eu não poderia contar sempre com a sorte. Cheguei no horário em casa, trouxe chocolate, fiz agrados, massagens nos pés e tudo parecia muito melhor do que antes da abdução. Mas chegou a sexta-feira do pagamento, um mês após meu contato com os extraterrestres.

Saí do trabalho e fui para o escritório, recebi a grana e nem passei no Balboa para tomar uma cerveja, queria vir logo para casa. O dia havia sido duro, e eu estava bastante cansado. Nem me passou pela cabeça sair com a Carlinha, até porque eu não podia correr o risco de adormecer novamente.

Abri a porta vagarosamente, tentando não chamar muito a atenção. A casa estava tomada por um silêncio estranho, e senti uma pontada no peito. Onde estaria Lavínia?

Deixei a bolsa no chão e caminhei sorrateiramente, da sala para a cozinha e da cozinha para o quarto. Gemidos abafados ecoavam no silêncio e eu vi uma silhueta sobre minha mulher, que assustado com a minha presença recém-descoberta, saltou e fugiu aos tropeços pela janela entreaberta, ainda nu. Era Jorginho, meu vizinho marombeiro, cinco anos mais jovem que eu.

– Mas o que está acontecendo aqui?

– Oh, meu amor! Ainda bem que você chegou! – disse Lavínia se cobrindo com o lençol. – Sabe o Jorginho? Descobri que ele é um alienígena disfarçado. Ele monitorava os momentos em que você não estava em casa e me cercava, me dizendo coisas horríveis.

– O Jorginho é um extraterrestre?

– Oh, meu amor! Você precisa acreditar em mim! Acho que ele tem uma espécie de poder psíquico e dominou minha mente, usando meu corpo para gerar uma raça híbrida que dominaria o nosso planeta!

– O Jorginho é um E.T. e dominou sua mente para me colocar um par de chifres?

– Eu gritava que não, que era casada, que não podia fazer aquilo, mas ele não me deu ouvidos. Foi horrível… – concluiu ela aos prantos.

Lavínia vive bem hoje com o Jorginho. Parecem felizes, pelo menos é o que diz a rede social. Inclusive, ela já está até esperando um etezinho. E eu continuo jogando sinuca no Balboa, na primeira sexta-feira do mês, além de bancar o leite do meu enteado.

Na verdade, hoje estou convencido de que a traição é como uma brincadeira de roleta russa. Você vai girar o tambor e apertar o gatilho diversas vezes, e sabe que não vai ficar impune por muito tempo, em algum momento o tiro vai te acertar. Pode demorar, mas vai.

George dos Santos Pacheco

* Conto premiado em 3° lugar no 2º Concurso de Prosa e Poesia de Bom Jardim, Autores da Serra, em 2016.

George dos Santos Pacheco (Nova Friburgo, 7 de outubro de 1981) é um escritor friburguense. Um dos autores da Coletânea “Assassinos S/A Vol. II”, e do romance “O fantasma do Mare Dei”, ambos publicados pela Editora Multifoco em 2010. Participou da antologia “Buriti 100”, pela Editora Buriti preparou para comemorar o lançamento do seu 100º livro. É também autor do romance "Uma Aventura Perigosa", do livro de contos "Sete - Contos Capitais", do infantil "As aventuras de Frog, o ratinho", e do livro de contos Tarde demais para Suzanne. Tem textos publicados em diversos blogs e sites especializados, é colunista da Revista Êxito Rio, e mantém desde 2009 o blog Revista Pacheco, onde publica seus próprios textos e de colaboradores. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, no tema lírico-filosófico; foi premiado em 1º lugar, na categoria crônica, e em 2º lugar, na categoria conto, no 1º Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, Troféu Affonso Romano de Sant'anna; e em 3° lugar, na categoria prosa, no I Concurso de Prosa e Poesia de Bom Jardim - RJ, com o conto "O Dono do Bar", durante a III Festa Literária da Serra (FLITS). Em 2014, teve seu conto "A Dama da Noite" adaptado para um curta metragem homônimo, através do coletivo audiovisual "Sétima Literal", de Nova Friburgo, que serviu de cartão de visitas da cidade para a implantação de um Polo de Audiovisual na região.

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