Casos e casos


...meus vencimentos mensais melhor seriam chamados de derrotas diárias

Venhamos e convenhamos: há casos e casos.

Velório, por exemplo. Nos Estados Unidos, tem almoço e janta, rola cerveja e uísque. Dá gosto ir a um velório assim. Aqui no Brasil, quando muito servem um cafezinho requentado. Nossos velórios são, no geral, tristes e cansativos. Talvez por isso um conhecido meu diz que só irá ao dele, e assim mesmo, contra a vontade. Mas eu estive num em que só a muito custo a viúva conseguia segurar o sorriso. Seus olhos, no entanto, brilhavam de alegria, e não sem razão. O falecido era um chato de galocha, que ela vinha aturando desde os tempos das galochas. Hoje em dia, livre, leve e solta, vive esbanjando todos os sorrisos que reprimiu naquele dia.
 
Outra coisa: finanças. Tem pessoas e – ai de mim – sou uma delas, que não sabem lidar com dinheiro. Já outras conseguem multiplicar o que ganham com uma facilidade espantosa. Meu salário escoa pelas padarias, supermercados, farmácias e, vou admitir, uma cerveja ou uma taça de vinho no fim do dia, que ninguém é de ferro, muito menos eu. Enfim, meus vencimentos mensais melhor seriam chamados de derrotas diárias. Já os nossos políticos, que diferença!
 
Eu diria que são homens probos, mas não quero que o leitor pense que estou ofendendo nossos homens públicos. Sim, homens honrados, que, se nunca receberam o Prêmio Nobel de Honestidade, é porque esse prêmio lamentavelmente não existe e, aliás, acho que já não o criaram porque viria todo ano para o Brasil. Da mais humilde câmara municipal aos mais majestosos palácios de Brasília, nossos políticos gastam suas vidas pelo povo, em troca de uma merreca de salário.
 
Mas, gênios das finanças, durante um só mandato multiplicam o patrimônio por trezentos, quatrocentos. Isso sem falar nos bens que, por modéstia ou esquecimento, não declaram. Um deles, diante das provas de que era dono de uma fazenda, ficou admiradíssimo: “Ué, essa fazenda é minha?! Nem me lembrava!” Outro, vejam só que coração generoso, colocou grande parte de seus imóveis em nome da empregada doméstica.  Enfim, casos evidentes de gênios das finanças.
 
E para não dizerem que eu sou puritano, vamos falar de sexo. Há os conservadores, que ainda o praticam de modo tradicional, que vem das origens da humanidade. Aliás, sem o método tradicional a humanidade nem existiria. Pois agora são muitas as variações, não vou entrar em detalhes, tem sempre a possibilidade de algum menor estar lendo estas mal digitadas linhas.
 
Mas acabo de ler que algumas pessoas preferem ter como parceiros sexuais coisas tão pouco sexuais como geladeiras, bicicletas e aspirador de pó. Eu também custei a acreditar. Mas tudo é possível neste nosso mundo espantoso, onde nenhuma loucura nos espanta mais. Nos Estados Unidos uma distinta senhora de 86 anos quase não chega aos 87 por causa da conta telefônica: havia gasto mil dólares no disque-sexo. Já uma outra, donzela aos 89, atribuiu sua longevidade à vida recatada que levava, e sentenciou: “Sexo envelhece!”
 
O que lembra uma história que já contei, mas, tenham paciência, vou contar de novo. Concurso para descobrir o homem mais velho do Brasil. Os três primeiros classificados vão receber seus prêmios.
 
Chega o terceiro colocado, ainda bem conservado e lúcido.
 
-Terceiro lugar: Manuelino Trancoso Barroso!
 
- Qual o segredo de tão longa vida, seu Manuelino?
 
- Nunca bebi, nunca fumei e sempre evitei as mulheres.
 
- E quantos anos o senhor tem?
 
- 97.
 
A seguir, sobe ao palco o segundo colocado, já andando com alguma dificuldade, mas alegre e aparentando boa saúde.
 
- Segundo lugar: Aristovaldo da Conceição e Silva!
 
- Qual o segredo de tão longa vida, seu Aristovaldo?
 
- Nunca bebi, nunca fumei e sempre evitei as mulheres.
 
- E quantos anos o senhor tem?
 
- 101.
 
Finalmente, é chamado o grande vencedor, mas este, já alquebrado, cheio de rugas e dores, somente consegue sair do lugar amparado por dois seguranças.
 
- Primeiríssimo lugar: Aristotélio Costa Cançado!
 
- Como o senhor chegou a essa idade, seu Aristotélio?
 
- Sempre bebi muito, fumei muito e tive muitas mulheres.
 
- E quantos anos o senhor tem, meu bom velhinho?

- 48!

Robério José Canto
 
Robério José Canto é licenciado em Letras, tendo se dedicado ao ensino de português e literatura em escolas da rede particular e pública, lecionando em Nova Friburgo, sua cidade natal, e no Rio de Janeiro. Há longos anos colabora com imprensa friburguense, abordando temas de literatura e cultura em geral. Mantém a coluna Escrevivendo, em A Voz da Serra, no qual semanalmente publica crônicas e contos, além de eventualmente colaborar com outras seções do jornal. Publicou os livros “Um lugar muito lá”, “Ventos nas casuarinas”, “Menina com flor”, “O infinitivo e outros males”, “Onde dormem as nuvens” e “Toda criança merece ter um bicho”. Dentre outras distinções, recebeu o título de Cidadão Pleno Destas Terras de D. João VI, conferido pela Cidade de Nova Friburgo e o GAMA - Grupo de Arte Movimento e Ação;  a Moção Especial de Louvor  “pela valorosa  obra em prol da cultura e da Educação”, concedida pela Câmara Municipal de Nova Friburgo, e o Troféu Pégaitaz Irenee René, como um dos “Melhores do ano de 2015”, por decisão do Conselho de Representantes de Eventos Culturais de Nova Friburgo, “Diploma de Mérito Cultural”, outorgado pela Academia Nacional de Letras e Artes – ANLA; agraciado com Menção Honrosa pela Academia Ferroviária de Letras, dentre as Personalidades de Destaque de 2015. O 3º. Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo conferiu aos vencedores o Troféu Robério Canto. É presidente da Academia Friburguense de Letras, ocupando a Cadeira no. 4, patronímica de Alphonsus de Guimarães.

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