A preservação da memória e do patrimônio histórico como identidade cultural


A palavra e o conceito de memória vem já da antiguidade com uma grande preocupação pela preservação cultural. O termo tem origem no Latim "Memoria" e seu correspondente no grego "Mnemosyne", nome da divindade mitológica, responsável pela memória/lembrança dos poetas e artistas gregos.
 
A preservação da memória é ao longo dos séculos e milênios a garantia da identidade cultural de uma comunidade na sua experiência histórica. Daí a importância de se resguardar e se resgatar o conjunto dos elementos associados a uma evocação/lembrança, em diferentes suportes de natureza objetal (iconográficos, fotográficos, utensílios, documentos, monumentos e outros) que formam o universo dos bens ou patrimônio material.  E também os de natureza perceptiva e sensorial, o conjunto de elementos artísticos, sons, expressões, a oralidade, a musicalidade, as danças e costumes, festas, os mitos, lendas, o folclore, religiosidade, culinária... enfim, a chamada "memória dos sentidos", como patrimônio imaterial. Tudo isso marca o rosto cultural de um povo, de uma comunidade.
 
De grande relevância, apresenta-se, então, a História regional, cada vez mais explorada e aprofundada como reveladora das identidades dos povos que marcaram e transformaram o quadro dos fatos e definiram traços diferenciados, ignorados por um olhar de história da Corte e dos grandes centros urbanos de influência político-econômica, generalizando um conceito elitizado de "cultura". Para a construção de uma história mais desvencilhada da ótica do poder, é necessário reconsiderar o que foi "descartado" pela história oficial, os "resíduos" não convenientes a higiênica edição ideologizada, a partir da elite dominante, elementos indicadores de culturas marginalizadas, mas verdadeiramente produtoras de desenvolvimento, arte e diversidade social, como o forte exemplo da contribuição cultural negra. O que há de registro, consideração ou aprofundamento desta importantíssima matriz étnico-cultural, na história do país?
 
Neste contexto tem uma grande função de preservação os museus, organizados com os elementos diversos recolhidos e classificados com a participação das comunidades, como espaço de palestras, cursos, conferências, exposições e encontro humano-cultural da sociedade local, com o registro também dos testemunhos orais, com vídeos e arquivos da multiforme expressão popular.
 
O trem tem uma forte evocação na memória emocional, formador da cultura social, propiciador dos encontros pessoais, familiares, motor de desenvolvimento e escoamento da produção, integrando a sensibilidade humana, promovendo a socialização, a aliança das culturas das sociedades e o progresso econômico, na síntese poética com a paisagem natural. Resgatar as diversas influências e impressões pluriculturais propiciadas pela presença da ferrovia na origem, agregação, prosperidade ou concretização dos processos socioeconômicos das regiões e cidades é um rico caminho. Importante aproveitar os próprios prédios das antigas estações ferroviárias, dando a eles uma destinação cultural, fazendo com que a própria arquitetura emoldure e "fale", em comunhão com o conjunto dos outros documentos e elementos, sendo, desta forma um digno "templo" da identidade sociohistórica regional. Tudo isso aliado aos avanços tecnológicos que ajudarão com os recursos da digitalização de documentação rara, para o inventário e rede de informações sobre as variadas riquezas elementais de natureza material ou imaterial, a transmissão audiovisual e virtual, numa universalização do conhecimento a partir dos valores mais precisos das identidades regionais. O que sempre favorecerá um "pensar e olhar global, num agir e interagir local".

Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça

Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça  nasceu em São Gonçalo, RJ, em 13/04/1968. É Padre, pároco da Paróquia de S.José do Ribeirão , em Bom Jardim - RJ. Bacharel em Teologia pela Faculdade São Bento,no Rio de Janeiro - RJ, com Licenciatura Plena em Filosofia, pela Faculdade Católica de Anápolis - GO, onde também é Pós-Graduado em Docência do Ensino Superior.

Cadeira nº 18 - Patronímica: Guimarães Passos.


* Resumo da palestra na Academia Ferroviária de Letras – 13 de Julho de 2015.

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