Discurso de posse de Ricardo Lengruber Lobosco



Posse na Academia Friburguense de Letras
 
I. Certa vez, li um texto que escrevi para abertura de uma palestra do saudoso professor Rubem Alves. Ao final da leitura, antes de assumir o microfone, o Rubem exclamou num sussurro gentil: "você deveria publicar um livro". Num ato de ousadia, retruquei: "sim, claro, desde que o prefácio seja seu!" Para minha surpresa e alguma vaidade, ele disse: "combinado". Escrito o livro, encaminhei ao Rubem - uma das boas referências de leitura nos tempos de colegial e faculdade - que prontamente escreveu um prólogo bastante generosa para o livro "A escola em que (des)acredito". Nascia ali uma pontinha de convicção: talvez a palavra seja mesmo uma companheira que não poderei abandonar. Minha formação acadêmica se deu, em alguma medida, em conexão estreitíssima com a palavra. Há quem aprenda por números e fórmulas. Aprendi - ainda aprendo - seduzido pela palavra. Fiz História na, hoje saudosa, Faculdade Santa Doroteia. Aprendi que nada se muda tanto quanto o passado e nada é tão poderoso quanto à capacidade de construção da história de um povo. Coisa que se faz, notadamente, pela palavra. Ideologias, justificativas e memórias se constroem pelas possibilidades que a palavra concede. Antes da Licenciatura em História, cursei Teologia. Teologia? Sim, teologia! Aquelas poucas paixões que a vida me deu. Não perguntem como nem porque. Mas uma amiga daquelas que estão comigo nas melhores e nas piores horas. A teologia me ensinou a ler e me obrigou a escrever. Com a teologia, aprendi a ensinar e descobri que a realidade é uma construção de palavras. Especializei-me (na pós, no mestrado e no doutorado) nas ciências literárias que se debruçam sobre a Bíblia, que se dedicam a ouvir melhor a Palavra. Aí talvez tenha emergido mais robustamente a preocupação com a literatura. Foi por conta dessa vocação que aprendi hermenêutica, exegese, literatura, mitologia, análise do discurso, ciência literária, filosofia da linguagem e tantas outras ferramentas valiosas. Descobri coisas fascinantes com a Teologia. Especialmente sobre o poder das palavras. Mas não menos importante sobre política e em que medida a palavra é política. Mais do que ferramenta da comunicação política, a palavra, ela mesma, é política em si. Devo tudo isso a Teologia. Aliás: fiz, faço e quero ainda fazer muito, muitas coisas. Mas desejo, mesmo, me aposentar ensinado e aprendendo teologia. Isso é o que me dá prazer. Isso é o que me dá sentido. Trabalhei como professor de música, professor primário, guiei van escolar, lecionei na universidade e na pós. Atuei em comunidades cristãs evangélicas e leciono no seminário pastoral. Aprendi sobre administração e fui desafiado na secretaria municipal de educação. Em todos esses esforços, tive a palavra como companheira. Permiti que ela fosse foco, deixei que ela desse o tom. Por ela e por meio dela, esforcei-me por dizer e comunicar. Tentei esclarecer a realidade. Busquei a clareza da ciência e da técnica e a poesia da literatura e do diálogo, como irmãs que se digladiam, mas se complementam. Entendi que a realidade crua exige, por vezes, a densidade da poesia. Na caminhada, escrevi uns artigos acadêmicos, outros de opinião. Redigi muito material didático para aulas e cursos. Debrucei-me de forma mais delongada sobre uma dissertação e uma tese. Dediquei-me a escrever livros sozinho e em parceria. Cada desafio com seu charme e sua loucura. Em todos, todavia, uma certeza sempre me perseguiu: há muito por ser feito, o que aqui está é obra inacabada.

II. Sinto-me honrado, sim, de estar chegando a essa Academia de Letras. Mas me sinto, para além disso, desafiado. Penso, com uma dose da intrepidez dos novatos, que haja uma razão de ser para essa Casa de Salusse. E, como professor, ouso dizer que seja uma missão educacional. Como a acupuntura que toca o ponto específico para estimular o corpo todo, a Academia deve focar na leitura e na escrita com vistas a uma revolução de proporção extensa e profunda na sociedade. Mais do que uma congregação de notáveis, a Academia tem um avocação missionária, ligada, em especial, à construção do gosto pela leitura e pela escrita. E aqui me permito convidá-los a refletirmos sobre leitura e escrita, sobre currículo escolar e relação entre educação e sociedade.

a) Ler é uma experiência cultural extraordinária. Cultural porque não dispomos das competências leitoras naturalmente; construímos esse arsenal de habilidades e códigos ao longo do tempo das gerações e da vida de cada indivíduo. Extraordinária porque sempre, necessária e inexoravelmente, foge às regras e protocolos pré-estabelecidos; ler, por princípio, exige disponibilidade para encontrar o novo. Por isso Douglas W. Jerrold afirma que "há dois tipos de leitores: Os que cuidadosamente passam através de um livro, e os que, com igual cuidado, deixam que o livro passe através deles." Interessa-me, ainda, a originalidade de escrever. Não a tarefa de narrar uma história ou discorrer sobre um tema, mas o ato em si de escrever, montar palavras, organizar frases, erigir textos. É esplêndida a gama de possibilidades que a escrita alfabética nos legou. Se os textos ideográficos exigiam muito da criatividade dos leitores, a escrita alfabética conseguiu dar mais exatidão aos textos e deles conseguiu fazer retratos mais pormenorizados da realidade. E é justamente nesse momento que o texto passou a exigir leitores mais especializados. Ler passou a ser um gesto intelectual pleno. O mais pleno de todos! Não que prescinda da criatividade, mas concede a ela densidade e objetividade. Faz com que criatividade seja mais do que mera inventividade; antes, cresça como interatividade entre almas que se encontram no texto. Autor e leitor comungam por meio do texto e nele se encontram. Se, por um lado, o escritor, ao entregar seu texto, dele se emancipa e a ele dá autonomia, o leitor, por outro, ao mergulhar na leitura, precisa permitir-se alienar por um bocado de tempo. Sim, toda leitura exige a coragem da alienação. Ou seja, demanda do leitor a entrega de sua consciência às rédeas do texto. Um bom leitor se deixa envolver pelo texto e dele absorve as essências e, em algum sentido, se deixa absorver pelo texto e por seu mundo. É nesse sentido que se aliena, se permite conduzir por um outro. Paradoxalmente, todavia, no ato voluntário de auto alienação, o leitor encontra a possibilidade de construir ideias próprias. Ao se permitir alienar, o leitor assume o risco de perder identidade, mas descobre que não é um vaso vazio que precisa ser preenchido por algo que lhe vem de fora. Descobre que tem muito a dizer ao texto. Descobre que, com o texto, na verdade, estabelece uma parceria profícua de ideias e experiências. Há, nesse processo, uma via de duas mãos. Numa, o leitor que se permite inundar pela verdade do texto; noutra, o texto que se abre ao que o leitor tem a contribuir. Há, numa palavra, diálogo. Ler, por tudo isso, é uma experiência geradora de coisas novas. Não apenas o ato de escrever é criativo. A leitura também realiza, em regra, criação. Ela dá voz ao que ainda não foi dito. Nas palavras do Ítalo Calvino, "Ler significa preparar-se para capturar uma voz que vai surgir quando você menos espera. Uma voz que se deixa ouvir de um lugar inesperado, para além do livro, além do autor, além da escrita: ela vem do que foi dito, daquilo que o mundo ainda não fez a si mesmo porque ele não tinha palavras para dizê-lo". Na escola, mais valioso do que ensinar o código, é estimular o desejo pela descoberta de experiências novas por meio da palavra. Bons mestres conseguirão fazer nossos olhos verem a magia que está escondida sob as capas dos livros. Ajudarão a perceber o quanto a palavra é patrimônio humano por excelência. E, curiosamente, o quanto ela estimula o que há de mais radical na condição humana: a criatividade. Ensinarão que a mesma palavra que demandou mais atenção de um leitor cada vez mais especializado é também a responsável pelo amadurecimento da criatividade. Esses mesmos educadores nos darão a compreensão que a palavra - sua leitura e sua escrita - é, por um lado, resultado da atividade humana e dela um produto sofisticadíssimo; mas, por outro, é o fomento incansável para continuarmos a intervir transformadoramente sobre a realidade. A escola cumprirá seu papel quando nos revelar que é a palavra, ao mesmo tempo, causa e consequência daquilo que somos e do que desejamos ser. b) Escrever não é, somente, simples ferramenta de comunicação. Não é possível apenas lançar mão de signos e fazê-los dizer isso ou aquilo, mecanicamente. Essa não é a vocação da escrita. Escrever é fazer escolhas; ao optar por essa ou aquela palavra, se faz uma espécie de seleção ou recorte. Ou seja, diante da folha em branco, o autor faz opções - conscientes ou não - pelos rumos que seu texto tomará. E, ao se permitir escolher, empresta ao texto uma autonomia toda especial. Não que o texto, nesse primeiro momento, passe a ter vida própria já, mas que sua mensagem criará uma realidade específica e, de certo modo, distinta da concretude do aqui e agora. São nesses termos que se pode dizer que um texto é autônomo: ele cria uma realidade toda própria. Por conta disso, não seria exagero dizer que todo texto - qualquer texto - é uma peça de ficção ou um exercício de fantasia. A realidade do texto é, sempre, distinta da realidade crua da vida. O autor, ao fazer suas escolhas e assumir suas preferências, se coloca por trás das palavras e, ao mesmo tempo que revela interesses e intenções, se esconde no texto. Não me parece correta a ideia que o autor se entrega por meio de seu texto. O que ocorre é uma autocriação do autor por meio de sua produção textual. Ao mesmo tempo que o autor escreve, ele seleciona o que de si quer revelar. Os textos nascem da realidade, mas dela tratam com o distanciamento que a palavra exige e, nesse processo, concedem-na uma dimensão toda especial, onde fato e fantasia se comungam mutuamente. Pensar que fantasia é falseamento da realidade é o mesmo que dizer que a realidade existe em si mesma e não requer mediações para sua compreensão. E isso não é verdade. Tudo que nos cerca - mesmo nós mesmos - carece de uma linguagem para poder dizer-se. Toda linguagem, ainda que endurecida pelo rigor dos conceitos, está sempre eivada de fantasia. Toda linguagem é, de algum modo, fantástica. Isso revela duas surpreendentes descobertas. A primeira é que, necessariamente, a relação que estabelecemos com a realidade passa pelo viés da inventividade. A palavra foi o meio que desenvolvemos para capturar e tratar a realidade. A segunda é que, nesse processo de apropriação simbólica da realidade, plantamos a possibilidade de transformar essa mesma realidade. O que significa dizer que a dimensão fantástica dos textos é, em algum sentido, revolucionária. Prova disso é a linguagem simbólica de textos religiosos na Antiguidade. O apocalipse do Novo Testamento, por exemplo, é esplêndido e fantástico nas suas descrições da realidade. O que parece incrível e sem sentido, na verdade, é a via possível de aproximação com a história de perseguição e sofrimento daquela gente e, ao mesmo tempo, uma tentativa de transformação dela. Um texto não é, por isso, um espelho; antes, talvez, uma janela por onde o leitor tenta enxergar algo ou mesmo a si próprio; um espaço pelo qual o autor burla a si mesmo. Inventa-se e esconde-se. Projeta-se e lança-se adiante. Transforma-se e transforma seu entorno. Na escola, o desafio de professores e currículos é favorecer que a dimensão libertadora da Literatura encontre eco entre estudantes. Quando a escola conseguir transformar alunos em leitores e leitores em autores, conseguirá também mudar o rumo da História. Um texto não diz nada além do que desejamos ser. Quem está no texto é um autor. Esse, todavia, é diferente da pessoa que escreve. Não apenas o texto é uma criação; o autor, ele mesmo, é uma construção de si. Pelo texto, nos inventamos e nos transformamos constantemente.

III. Antes de terminar, preciso fazer três breves considerações.

a) A primeira sobre Cruz e Souza, patronímico da cadeira que hoje a mim é confiada nessa Academia. João da Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro, em 1861 e faleceu em Curral Novo, 1898 com apenas 36 anos. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. Filho dos escravos alforriados, João da Cruz recebeu educação formal na casa de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Sousa - de quem adotou o nome de família, Sousa. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais. Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro. Em 1885 lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois veio para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal Folha Popular. Em fevereiro de1893, publicou Missal (prosa poética) e em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil que se estenderá, pelo menos, até 1922. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que se encontram inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos. Embora quase metade da população brasileira não seja branca, poucos foram os escritores negros ou indígenas. Cruz e Sousa é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. A que aprofundar a discussão sobre a procedência da acusação, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Sousa militou, sim, contra a escravidão. Tanto da forma mais prática, fundando jornais e proferindo palestras, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial. Afora a discussão, sinto-me especialmente honrado em ocupar essa cadeira. Afinal, Nova Friburgo foi a terra do Barão, cuja posse de escravos o fez um dos maiores - senão o maior - senhor escravagista do século XIX. Ou seja, nossa história está bem longe de ser apenas o recorte da suíça brasileira, mas um caldeirão de culturas e heranças sobre as quais devemos nos ocupar mais. Com a proximidade da celebração dos 200 anos de Nova Friburgo, apresenta-se para nós uma rica oportunidade de revisitação de nossa história, que deixe de lado aproximações folclóricas e fortemente carregadas de ideologias; quem sabe esteja aqui uma chance de compreendermos essa dimensão cosmopolita de nossa trajetória histórica e a gama de oportunidades que isso nos abre.

b) Em segundo lugar, preciso fazer referência ao Professor Hamilton Werneck, que me saudou de forma tão gentil. Fui seu aluno no Colégio Anchieta. Lembro-me de suas aulas e de sua inteligência incomodada que mescla espetáculo e provocação. Isso me seduziu bastante. Mas um fato em especial merece destaque: uma correção ortográfica. Um texto escrito e uma palavra grafada erradamente. Hamilton de forma muito cortês sinalizou o erro. Acho que nascia ali uma apreciação especial pelas palavras. Por meio do Hamilton, dedico parte dessa posse aos meus professores e professoras.

c) Por fim, desejo dedicar minhas palavras finais aos meus familiares aqui presentes. Dedico aos meus filhos Miguel e Augusto. Tenho dois filhos. Ou melhor, eles me têm. Ou melhor ainda, nos temos mutuamente. Sem escrituras. Vivi anos sem eles. Sequer imaginei que eles pudessem existir. Agora, sequer posso imaginar minha vida sem eles. Mas sei que um dia eles estarão mais distantes. E terei que me refazer. Paciência. São lindos. E são chatos também. São gente. Um é cheio de força e vigor. Sorri como um herói. Lindo. Satisfeito. Viril. Frágil também. Mente. Esconde. Chora. O outro é matreiro. Inteligente. Irônico. Sua força é diferente. Vem de uma perspicácia difícil. Chaga a um realismo que incomoda. Tenho experiências com eles. Casos. Histórias. Estórias. Aprendizados. Ensinamentos. Ciência. Fé. Tempo desperdiçado só olhando. Brincando. Me inebria vê-los dormindo. Especialmente ao meu lado. Puxa: isso é inexplicável. Amo meus filhos. Desejo que cresçam com saúde; com vigor; com alguma sabedoria; mas que sejam, acima de tudo, gente do bem. Homens que escolham o correto. Gente que tenha o que escolher. Que sejam amados. Que tenham que lhes afague. Pessoas com quem se sintam em casa. E que amem. Amem mesmo. Amem de modo que se sintam plenos. Há experiências que mudam a vida da gente. E mudam mesmo. Mudam irremediavelmente. Meus filhos fizeram isso comigo. Que bom.
 
Ricardo Lengruber Lobosco

08 de maio de 2015

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