Discurso de posse de George dos Santos Pacheco


1. Saudações

Exmo. Sr. Presidente da Academia Friburguense de Letras, Prof. Robério Canto;

caros confrades e caras confreiras,

amigos, e colegas que se encontram na assistência

meus pais, irmão, esposa e filhos,

meus senhores, minhas senhoras.

Boa noite.

2. Introdução

“Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar”.

Eu acredito que a literatura sempre esteve presente entre os humanos, desde quando ele se organizava em tribos e bandos, até se alcançar a excelência da organização das sociedades atuais. Os desenhos rupestres, por exemplo. A interpretação deles está cercada de controvérsia, mas pensa-se correntemente que possam ilustrar cenas de caça, rituais, e cotidiano. Ou seja, nada mais são que crônicas, expressas através da linguagem conhecida pelos homens primitivos.

Com a evolução e apropriação da linguagem, o homem estabelece a literatura oral, época em que surgem também as fábulas, composições curtas, em que os personagens são animais com características antropomórficas, muito presente na literatura infantil. As fábulas possuem caráter educativo e fazem uma analogia entre o cotidiano humano com as histórias vivenciadas pelas personagens.

Assim, a partir da literatura, surgem outras representações artísticas, como o teatro, o cinema, a música, e até mesmo as histórias em quadrinhos e jogos virtuais, considerando que atualmente apresentam enredo e se desenvolvem a partir de uma história principal.

Parafraseando a acadêmica Tereza Malcher, na crônica “Por que estou escrevendo sobre bússolas?”, publicada no jornal A Voz da Serra, “A leitura e a escrita são “valores” maiores. Habitamos na língua materna, casa que nos faz humanos e ser o que somos. Brasileiros, inclusive. Falando, lendo e ouvindo apreendemos o conhecimento e o mundo se aproxima das nossas mãos. Ampliamos o modo de interagir e interferir no ambiente”.

É nisso que acredito. Numa literatura libertadora, capaz de instrumentalizar os homens a serem mais que meros coadjuvantes, mas sim, escritores de sua própria história. A literatura é meio, e não fim. Desde os tempos mais remotos, ela evoluiu e fez evoluir, estimulando o pensamento crítico e deve ser fomentada, sempre e cada vez mais, não apenas como fruição, mas como instrumento capaz de conduzir os homens a interagir e interferir de maneira mais efetiva no ambiente, provocando mudanças significativas na sociedade e em sua vida.

3. Patrono


A frase com que iniciei este discurso, não é minha. Seu dono é o patrono da cadeira 38, a qual passarei a ocupar, Sylvio Romero: advogado, jornalista, crítico literário, ensaísta, poeta, historiador, filósofo, cientista político, sociólogo, escritor, professor e político brasileiro.

“Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar”. A frase foi uma resposta em 1904, através de carta, a um questionário feito por João do Rio para a imprensa carioca.

Sylvio Romero foi um dos membros do corpo diretivo luso-brasileiro da Revista de Estudos Livres entre 1883-1886, e estava entre os intelectuais que fundaram a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1897, ocupando a cadeira 17, com Hipólito da Costa como patrono e, foi o acadêmico que recebeu Euclides da Cunha em 18 de dezembro de 1906. Entre 1911 e 1912 residiu em Juiz de Fora, participando da vida intelectual da cidade, publicando poemas e outros escritos nos jornais locais, prefaciando livros, ministrando aulas no ensino superior e proferindo discursos.

Sylvio reivindicava para o Brasil o “pensamento autonômico”, e optaria pelo “evolucionismo spenceriano, no qual os fatores biológicos dariam um suporte maior à sua crítica sociológica”.

A obra de Sylvio, desde os primeiros ensaios publicados em periódicos do Recife, na década de 1870, situa-se sob o signo do embate e da polêmica, e estende-se desde a poesia, crítica, teoria e história literária, folclore, etnografia, até estudos políticos e sociológicos.

É, pois, com muito orgulho que passarei a ocupar esta cadeira, ciente da responsabilidade que agora me é imposta, mas convencido de que junto aos nobres confrades e confreiras, com os quais ainda tenho muito que aprender, poderei desempenhar um bom papel em prol da literatura friburguense.

4 – Homenagens

Manoel Joaquim Falcão


Meu antecessor na cadeira 38 foi o advogado e professor Manoel Joaquim Falcão. Natural de Barcelos, em Portugal, veio para o Brasil aos 33 anos para atuar como professor de letras clássicas, grego e latim na PUC, tendo estudado anteriormente na Universidade de Salamanca, na Espanha. Cursou direito na Faculdade Cândido Mendes, no Rio, como exigência para a naturalização, mesmo já tendo feito o curso em Portugal. Transferiu-se do Rio para Nova Friburgo convidado para lecionar no Colégio Anchieta e na então Faculdade Nossa Senhora Medianeira, posteriormente Faculdade de Filosofia Santa Doroteia. Foi seu primeiro professor leigo e ajudou muito a faculdade no início de seus trabalhos. Lecionou também no Colégio Cêfel e foi vice-cônsul e cônsul honorário de Portugal no Brasil.

O Professor Falcão esteve sempre envolvido com os processos e os aspectos culturais da cidade e destacou-se no Grêmio Português de Nova Friburgo, tendo ocupado o cargo de presidente durante muitos anos, sempre ajudando a agremiação mesmo fora do cargo máximo, exercendo também, o cargo de diretor jurídico.

Por sua trajetória, e por tudo que representou para sua família e para a sociedade friburguense, em especial os grupos escolares a que pertenceu, o Grêmio Português e a Academia Friburguense de Letras, fica aqui uma singela homenagem deste jovem acadêmico ao professor Manoel Joaquim Falcão.

Aécio Alves da Costa


Aécio Alves da Costa foi um advogado, ‬professor universitário, e ‬escritor friburguense. Era titular da cadeira nº 36, de patronímica de Raul de Leone.

Aécio nos deixou subitamente em 29 de março, fato que atingiu a todos de surpresa. Homem de sorriso fácil, ‬‬publicou os livros‭ ‬“Poemas de‭ ‬uma‭ ‬cidade‭”‬,‭ ‬“Desenvolvimento e‭ ‬equilíbrio das‭ ‬organizações‭”‬,‭ ‬“Relações‭ ‬humanas‭”‬,‭ ‬“Atribuições do‭ ‬gerente‭”‬,‭ ‬“Eles‭ & ‬Elas,‭ ‬Elas‭ & ‬Eu‭”‬,‭ ‬“A Moça de Itaguaçu‭”‬,‭ ‬e‭ ‬“Trovas,‭ ‬trovinhas e‭ ‬trovões‭”‬. Foi presidente por dois mandatos da AFL (2008 – 2012) e membro atuante de diversas instituições como a Academia Ferroviária de Letras,‭ ‬Sociedade Amigos da Marinha,‭ ‬Associação Brasileira de Recursos Humanos,‭ ‬Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento,‭ ‬Associação de Amigos e Moradores de Amparo e Associação Friburguense de Imprensa,‭ ‬da qual foi um dos fundadores e ocupava o cargo de diretor jurídico e presidente do‭ ‬conselho‭ ‬fiscal.

Em sua carreira no magistério, ‬lecionou nas Universidades Santa Úrsula,‭ ‬Cândido Mendes e Benett‭; ‬na Fundação‭ ‬Getúlio Vargas e no Cefet.‭

Infelizmente, não tive a oportunidade de conviver muito tempo com o Professor Aécio, mas agradeço por sua companhia e pelas conversas que pude ter com ele durante alguns eventos da academia, dos quais pude participar, antes mesmo de ser acadêmico. A título de homenagem, recito aqui seu poema Vida:

Vida

Vida que te quero viver.

Quando subia as montanhas no Vale Nevado dos Alpes chilenos

Me dei conta de nosso tamanho diante do universo

Onde pude refletir de modo solitário

Sentindo-me como um ponto minúsculo

Naquele vale imenso, lindo e aterrador.

De onde vi o vôo de um condor.


Os seres humanos são criaturas tão pequenas

Tão menores que o universo

Tão insignificantes diante de sua imensidão

Que não devemos nos preocupar tanto com as coisas menos importantes.


Aproveitar a cada momento da vida…

Ampliar a visão do mundo, dar asas à imaginação

Sonhar, viver a vida

Suportar nossas fraquezas

Não nos preocuparmos tanto com as coisas que nos aborrecem.


Aproveitar a vida oferecendo amor, espargindo alegrias

Sorrir e fazer alguém sorrir a cada dia

Escolher ser feliz a cada dia

Reverenciar o nascimento de um ser

Dando-lhe a garantia do bem viver

Entre os homens e sob o olhar do Criador.

Aproveitar o Sol, que aquece a alma e dá vigor ao corpo.


Contemplar o brilho da lua e

Mergulhar na escuridão da noite

Encontrar sempre o lado positivo de tudo que nos rodeia

E ele aparecerá. É só procurar… concordar

E mesmo que tudo pareça tão grande, tudo é tão pequeno.

Viver intensamente a cada momento,

Viver sem medo de ser feliz

Viver como se o amanhã não existisse

Ou seja, viver a VIDA de hoje e agora!


5 – Agradecimentos

Agradeço a Deus pela oportunidade, a meus pais e professores, pela educação que me deram, ao meu irmão, pelo companheirismo, à minha esposa e filhos, pela compreensão, paciência e carinho, aos meus amigos, que por bons ouvidos se fizeram. Eu não teria chegado aqui sem vocês.

Não posso esquecer dos amigos Marcos Saraiva Arrais, Bruna Verly, Márcio Branco, Jailson Bernardo da Silveira, e Gilberto Sader, pelo apoio prestado para que essa festa pudesse acontecer. Muito obrigado.

Agradeço ainda, pela boa acolhida de todos os confrades e confreiras, em especial aos acadêmicos Alberto Wermelinger, Tereza Malcher, e Álvaro Ottoni e o nosso presidente Robério Canto.

Obrigado pelo carinho. Espero estar à altura da Casa de Salusse e contribuir sobremaneira a fim de elevar o nome da Academia Friburguense de Letras, da Literatura e de Nova Friburgo, e perpetuar os ideais de Dr. Rudá Azambuja e o Professor Messias de Moraes Teixeira.

Encerro este singelo discurso, nas palavras do Almirante Barroso, quando da Batalha Naval do Riachuelo: “Sustentar o fogo, que a vitória é nossa”; e tomando emprestado o lema do Hidrógrafo: “Restará sempre muito o que fazer”.

Boa noite, e muito obrigado.

George dos Santos Pacheco

Nova Friburgo, em 15 de abril de 2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário