De cabelos e acentos


Os brasileiros não sabiam o que era “honestamente”.

Alguns valores da juventude devem ser preservados, acho eu. Por exemplo, os cabelos. Certo dia, estávamos na sala quando Tarcísio Meira apareceu na telinha, e qual foi o comentário geral, especialmente entre as mulheres? “Como está bonito o cabelo do Copola!”, sendo Copola o personagem do famoso ator na novela de então.  Não sei se por ciúme, despeito, amizade ou horror, como diria o Lupicínio, o fato é que pensei cá comigo que se o cabelo despertava tanta admiração, era porque o que estava abaixo deles não mais fazia bater os corações femininos.

Mas antes salvar os cabelos do que nada. Ultimamente eu vinha observando que minha testa parecia maior cada vez que eu me penteava. A princípio, fiquei na dúvida se era a inteligência que crescia ou o cabelo que caia. Minha mulher, solidariamente, nada comentou a respeito. Talvez por conhecer há muitos anos os estreitos limites de minhas competências intelectuais. Mas eis que um amigo – nem sei mais se é amigo mesmo – tendo me encontrado quando eu saia do barbeiro, teve a delicadeza de comentar: “Puxa, quando a gente corta o cabelo é que vê como os fios estão indo embora!”

Desde então venho contando, a cada manhã, cada um dos fios, mentalmente declamando o soneto “As pombas”, de Raimundo Corrêa, e nem me diga que não conhece, que você também é dos tempos das antologias escolares, e era só abrir as páginas de qualquer uma delas e as pombas do Raimundo começavam a voar: “Vai-se a primeira pomba despertada...Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas” e por aí afora, até que tivessem voltado todas as pombas e sumido todos os sonhos.

Mas, infelizmente, não são apenas os cabelos que caem. Recentemente, por conta do acordo ortográfico, também alguns acentos caíram. Sim, eu sei, os assentos também caem, mas esse é um assunto desagradável, especialmente para as mulheres, que, com justas razões, dão tanta importância aos seus, visto que os homens em geral apreciam especialmente essa parte da estampa feminina. Fiquemos nos acentos.

Desde o dia 1º de janeiro de 2009, estou escrevendo joia depois de passar a vida inteira tentando ter alguma jóia. A reforma ortográfica tem doutos defensores e detratores não menos doutos. O fato é que lá se foram os acentos, as pombas de Raimundo Corrêa, que antes tinham vôo, passaram a se contentar com voo, ou ficar quietinhas no pombal do marquês. Acho que o próprio Marquês de Pombal, se consultado, diria que a emenda ficou pior do que o soneto.

 Os brasileiros tinham cá suas idéias, enquanto os portugueses tinham lá suas idêias. A julgar pelas piadas de português aqui e pela fama dos brasileiros em Portugal e no resto do mundo, nenhuma delas prestava. Até corre pela internet uma historinha politicamente incorreta que arrasa tanto conosco quanto com eles, e ainda ofende outros povos igualmente merecedores de respeito. Diz a tal historinha que foi feita a seguinte pesquisa mundial: “Pedimos-lhe a delicadeza de responder honestamente, com toda a liberdade, da forma mais inteligente possível, a seguinte pergunta: Por que alguns povos têm tanta comida, enquanto o resto do mundo passa fome?”

Parece que o resultado da pesquisa foi um fracasso, porque os argentinos não sabiam o que era “delicadeza”, os cubanos não sabiam o que era “liberdade”, os portugueses não sabiam o que era “de forma inteligente”, os africanos não sabiam o que era “comida”, os americanos não sabiam o que era “o resto do mundo”, os alemães não sabiam o que era “fome” e, finalmente, os brasileiros não sabiam o que era “honestamente”.

Preconceitos à parte, também eu gostaria de fazer uma pesquisa, para saber por que eu, que tenho cada vez menos cabelos, tento conservá-los, enquanto os adolescentes, que os têm em abundância, frequentemente raspam a cabeça. Talvez não chegasse à conclusão alguma, mas também não consigo chegar a nenhuma conclusão sobre a queda dos acentos.

Melhor ficar com a opinião de um amigo que, modestamente, me confessou que a reforma ortográfica nada significou para ele: “Eu nunca usei acento mesmo. Trema e hífen, esses então jamais apareceram em palavra escrita por mim. Se eu escrevia errado pela antiga ortografia, não é por causa de um acordo, sobre o qual, aliás, não fui consultado, que eu agora vou me corrigir!” 

Robério José Canto

Robério José Canto é licenciado em Letras, tendo se dedicado ao ensino de português e literatura em escolas da rede particular e pública, lecionando em Nova Friburgo, sua cidade natal, e no Rio de Janeiro. Há longos anos colabora com imprensa friburguense, abordando temas de literatura e cultura em geral. Mantém a coluna Escrevivendo, em A Voz da Serra, no qual semanalmente publica crônicas e contos, além de eventualmente colaborar com outras seções do jornal. Publicou os livros “Um lugar muito lá”, “Ventos nas casuarinas”, “Menina com flor”, “O infinitivo e outros males”, “Onde dormem as nuvens” e “Toda criança merece ter um bicho”. Dentre outras distinções, recebeu o título de Cidadão Pleno Destas Terras de D. João VI, conferido pela Cidade de Nova Friburgo e o GAMA - Grupo de Arte Movimento e Ação;  a Moção Especial de Louvor  “pela valorosa  obra em prol da cultura e da Educação”, concedida pela Câmara Municipal de Nova Friburgo, e o Troféu Pégaitaz Irenee René, como um dos “Melhores do ano de 2015”, por decisão do Conselho de Representantes de Eventos Culturais de Nova Friburgo, “Diploma de Mérito Cultural”, outorgado pela Academia Nacional de Letras e Artes – ANLA; agraciado com Menção Honrosa pela Academia Ferroviária de Letras, dentre as Personalidades de Destaque de 2015. O 3º. Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo conferiu aos vencedores o Troféu Robério Canto. É presidente da Academia Friburguense de Letras, ocupando a Cadeira no. 4, patronímica de Alphonsus de Guimarães.

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