Não é para sarapantar


Em 2015, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) homenageou Mário de Andrade, escritor que nasceu em São Paulo, em 1893. Foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta, cuja obra abriu caminhos para a literatura moderna brasileira. Construiu uma obra vasta e inovadora com ensaios, livros de poesia e romances, dentre os quais destaco “Amar, Verbo Intransitivo” e “Macunaíma”. Sua presença foi relevante na Semana de Arte Moderna, em 1922, evento que transformou as artes no Brasil. O prefácio de um dos seus livros de poesias, “Paulicéia Desvairada”, lançado no mesmo ano, apresenta as bases do modernismo brasileiro, como é possível exemplificá-las nos versos do poema Enfibraturas do Ipiranga, deste livro:
Para que cravos? Para que cruzes?
Universalizai-vos no senso comum!
Senti sentimentos de vossos pais e avós!
Para as almas sempre torresmos cerebrais!

No modernismo as estruturas passadas são rompidas. Com relação à literatura, a palavra é usada com liberdade; vai além do racional e revelam o inconsciente. O escritor pode, então, “sonambular”, fazer experiências linguísticas, criar novos termos, recombinar radicais, prefixos e desinências, utilizar uma linguagem simples e coloquial, contendo até mesmo erros propositais de ortografia para melhor expressar percepções e sensações.
“Macunaíma” é um texto inteligente e não é para deixar ninguém sarapantado. É para o leitor avoar sobre o folclore, em suas lendas e mitos dos vários interiores do Brasil. Uma obra para todos. Para os jovens, inclusive.
Não é para ser lido com a sensação “Ai! Que preguiça!...” (expressão do personagem). Mas com cuidados por ser um texto complexo. Requer ser interpretado a partir da extensa pesquisa que Mário de Andrade realizou sobre o povo brasileiro e da sublime criatividade que um autor possa ter.
Por ser um livro fantástico e surrealista, o leitor necessita ser preparado, principalmente o jovem. Inclusive, Macunaíma traz em suas entrelinhas a história do Brasil e do mundo após a primeira guerra mundial, quando o crescimento da urbanização e a evolução tecnológica transformaram a forma de viver e influenciaram as artes, como a literatura. “Macunaíma” conta a trajetória de um estranho personagem que nasce na selva e, quando adulto, transmigra para a cidade, onde se espanta com a multidão e com as máquinas. “A inteligência do herói estava muito perturbada. As cunhãs rindo tinham ensinado para ele que o sagüi-açu não era saguim não, chamava elevador e era uma máquina”. E, finalmente, retorna ao campo, onde morre e se transforma em estrela.
É uma literatura essencialmente brasileira que valoriza as tradições do país. Ora, nosso jovem, acostumado com uma linguagem reduzida pelas mensagens dos celulares, pode ter contato com a de “Macunaíma”, enquanto oportunidade de conhecer um momento histórico cultural que ocorreu no século passado e que se faz hoje presente. Além do mais é uma forma de guardar em si um Brasil imenso; miscigenado e diferenciado.
A FLIP, ao homenagear Mário de Andrade, fez uma reverência à brasilidade, expressou amor à nossa terra, à nossa gente.
Não poderia terminar esta coluna sem dizer que a FLIP possibilita o encontro entre livros, escritores e leitores de todas as idades. E, cá para nós, como é emocionante conhecer o autor, sua vida e o processo pelo qual construiu seus livros. Como “Macunaíma”, enquanto obra descontextualizada do seu tempo e desvinculada de Mário de Andrade tem valor empobrecido.
A Casa Azul, entidade que realiza a FLIP, tem a finalidade de estimular a leitura e a criatividade da criança, através da Flipinha, e do jovem, através da Flipzona, oferecendo debates sobre temas, conversas com autores, palestras sobre vida e obra de escritores, além de oficinas que ocorrem durante a Festa e depois, ao longo do ano. São iniciativas que envolvem também os agentes de leitura. É uma iniciativa que merece nossos aplausos!
Em razão disso, quero expressar algo que toca meu coração. Por que Nova Friburgo não faz uma festa assim? Afinal de contas, aqui é a cidade da inspiração! Não vamos que esquecer que Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e J. G. de Araújo Jorge passaram por aqui!

Tereza Malcher

Mestre em Educação (PUC-RJ), escritora de livros infanjuvenis, membro efetivo da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do prêmio OFF FLIP DE LITERATURA - Festa Literária Internacional de Parati.

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