Leões ou estrangeiros


Hoje, não poderia deixar de falar sobre o projeto “Esta História Também é Sua”, que foi uma interessante contação de histórias! E os jovens estudantes da Escola Estadual Tuffy El-Jaick gostaram de escutá-las.

O projeto aconteceu por solicitação do setor de literatura do SESC de Nova Friburgo, que nos seus braços o acolheu e na sua biblioteca o apresentou. Ele foi planejado e realizado por nós, os acadêmicos da Academia Friburguense de Letras. 

Fizemos uma contação diversificada com palestras, músicas, trovas, raps e poesias, o que deu um toque de arte aos fatos da bela Nova Friburgo. As palestras foram apresentadas pelos acadêmicos: Tereza Cristina Malcher Campitelli (Os primórdios da cidade e suas lendas), Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça (O início do sec. XIX e a fundação da cidade de Nova Friburgo), Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat (Os suíços), Hartmut Riedmaier (Os alemães), Maria Janaína Botelho Corrêa (A estruturação da vila de Nova Friburgo), Robério José Canto (A cidade da inspiração), Ordilei Alves da Costa (O trem). As apresentações foram enriquecidas pelo violão de Paulo Newton, as trovas e poesia de Elisabeth Souza Cruz, bem como pelos rappers Sergio Roberto Pinho Júnior e Fábio Gonçalves do Nascimento.  

Todos nós fomos imbuídos pela preocupação crescente com a nossa cidade!  O que quer dizer que o sentimento de pertencimento fundamentou cada etapa do projeto.

Quem serão amanhã as crianças e os jovens de hoje? Serão Leões ou estrangeiros? Tenho observado que o friburguense se comporta como um estrangeiro na sua própria cidade quando é indiferente à vida e à natureza da região. Age como se fosse um passageiro que observa e comenta. Mas pouco ou nada faz.

O sentimento de fazer parte de um lugar é relevante uma vez que significa interagir ativamente na coletividade, conhecer a história e cuidar. Cuidar não está nos discursos, mas nas atitudes diárias, como ser responsável, vigiar, estar alerta aos acontecimentos. E defender, como os leões fazem. 

É um sentimento de apego que descreve a afirmação “aqui é minha terra e estou entre minha gente”. Esta afeição é determinante na vida e decorre de vários níveis de relação; um deles é o modo de olhar para a história do lugar, ao vê-la da mesma forma como se observa os fatos da própria vida.

Nova Friburgo tem um passado repleto de aventuras e esperanças, romântico e instigante, cheio de fatos pitorescos. Porém não muito conhecido pelas crianças e jovens. Quiçá pelos adultos. O projeto “Esta História Também é Sua” revelou que eles gostaram de conhecê-la e, certamente, os motivaram a querer ler a respeito. Temos obras de literatura interessantes que podem ser lidas por crianças e jovens. 

Contar a eles a história seja nas escolas, na família, até nas praças, revela a vontade de se oferecer contribuições à cidade, o que requer leituras e pesquisas. Se pensarmos bem, o que foi feito e como o foi pode ser contado através da experiência de vida das pessoas que aqui viveram e dedicaram seus esforços, até se sacrificaram, por suas próprias esperanças e sonhos. 

Mão de Luva apesar de ser uma lenda, carregada de incertezas sobre a veracidade dos fatos, descreve o desbravamento dos Sertões do Macacu. Apenas o conhecimento das versões da lenda pode acender o sentimento de pertencimento. Além do mais, precisamos ter heróis, figuras lendárias que descrevem nossos arquétipos, os quais são as bases dos nossos referenciais e das identidades social e individual.

O futuro está na criança e no jovem. E aquelas velhas questões que todos nós nos deparamos no início da vida: quem sou e de onde venho, sempre nos remetem à história onde se vive. Tal desconhecimento favorece a impostura face aos acontecimentos e empobrece os ideais.

Ao longo da realização do projeto, junto aos jovens alunos, reforçamos que o principal objetivo do trabalho foi plantar as sementes na consciência de cada um. Quisemos despertar leões, pois neles está o futuro de Nova Friburgo.
Tereza Malcher
Mestre em Educação (PUC-RJ), escritora de livros infanjuvenis, membro efetivo da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do prêmio OFF FLIP DE LITERATURA - Festa Literária Internacional de Parati. *Publicado originalmente em A Voz da Serra, em 04 de julho de 2015.

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