D. Pedro II no Líbano

Houve um momento em que árabes e, notadamente os libaneses, passaram a se interessar em emigrar para o Brasil, transformando-o no país de sua predileção. Levando-se em consideração a distância geográfica, os poucos contatos com o pequeno número de libaneses no Brasil, o que teria despertado tal interesse ? Episódios ainda não explorados pelos historiadores, e que aguardam serem devidamente estudados, são as viagens do nosso imperador D. Pedro II (*1825 e †1891) ao Oriente Médio nos idos de 1871 e 1876.
Os registros históricos nos ensinam que o imperador foi um grande cidadão, um administrador empreendedor, possuidor de grande cultura e amante das artes e das ciências em geral. Dotado de uma mente brilhante e voltada para a pesquisa, ficou também conhecido como “O Rei Filósofo”, fato que muitos brasileiros desconhecem. Viajante inveterado, conheceu vários países do mundo, notadamente quase toda a América, a Europa e o Oriente Médio. Era um entusiasta do chamado Levante, da Cultura e da Literatura Árabe, chegando mesmo a estudá-la e aprendê-la com um professor arabista alemão. Consta que não só dominava o idioma árabe, como também a língua hebraica, bem assim alguns outros. Existe, na Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, um grande acervo documental sobre suas viagens. No Departamento de Iconografia, uma coleção de fotos, algumas feitas pelo próprio Imperador, assim como outras adquiridas em cada um dos países por onde andou, dos mais renomados fotógrafos da época. Aliás, era ele um aficcionado pela fotografia desde a idade de 14 anos, quando em 1840 adquiriu um daguereótipo, três meses antes de o aparelho ter sido lançado em New York.
Durante suas viagens pelo Brasil e pelo exterior ele registrava, com a fidelidade da imagem, todos os fatos e coisas interessantes acontecidas. É de sua lavra o grande álbum de fotos “Collecção D. Thereza Christina Maria”, nome de sua mulher, com cerca de 40 mil fotos, considerado o maior acervo de um governante no Século XIX. Entre elas, estão as fotos de sua passagem pelo Egito em 1871, e ao Líbano, Síria, Palestina e Egito em 1876.
O interesse de D. Pedro II pelo Líbano teve início em seu primeiro contato com o Conde Miguel Debbane, nascido em Sidon (*1806 e †1872), que tinha emigrado para o Egito, tornando-se o Cônsul Honorário do Brasil em Alexandria. Nessa cidade, Miguel Debbane mandou construir, em 1868, uma igreja cristã Greco-Melquita (Rito Bizantino) consagrada a São Pedro, em homenagem a D. Pedro II. Teria sido este o episódio que particularmente motivou o imperador a se aproximar do Oriente Médio e, notadamente do Líbano.

PRIMEIRA VIAGEM
Chegando em Marselha, D. Pedro II desvencilhou-se logo de imediato, do pessoal da Corte, pois costumava abolir o protocolo, para encontrar-se com os homens de ciência cujos escritos conhecia. Em Cannes recebeu a visita de William E. Gladstone, o grande estadista inglês. Em Montpellier visitou a Academia de Medicina, grande centro divulgador das ciências médicas fundado por mestres árabes e judeus no Século XII.
Em Paris participou de manifestações culturais e da conferência do ilustre filósofo Adolphe Franck. Durante o evento, o filósofo, identificando-o na platéia, fez-lhe grande homenagem, dizendo: 
 
“Um grande imperador moderno tomou o peito de extirpar, no seu império, a chaga social que é a escravidão. Este Imperador, filantropo e sábio, não é um mito: ele existe, está cheio de vida, percorrendo os grandes centros europeus para estudar e ver o progresso. Este imperador filósofo, vós podeis vê-lo, ele está ali, ao nosso lado (indicando o imperador) Entrevistou-se ainda com Louis Pasteur e Ernest Renan, com quem conversou sobre as línguas semíticas. Em Madri, esteve na Academia Espanhola de Letras, onde discursou no mais puro castelhano. Em seguida, empreendeu viagem para Alexandria, no Egito, onde encontrou-se com o Conde Miguel Debbane, de quem já se falou. De Alexandria partiu para o Cairo, encontrando-se lá com egiptólogos de vulto como François Auguste Ferdinand Mariette, Heinrich Karl Brugsch, Guillardot e Rougé, discutindo ciências e línguas antigas. Segundo depoimento de seu amigo Miguel Debbane, D. Pedro II costumava dirigir-se à modesta casa de Brugh, no bairro Koladi, tomar chá e discutir ciências. Regressando ao Brasil, teria continuado os seus estudos de egiptologia, assim como das línguas antigas e do idioma árabe.

SEGUNDA VIAGEM
Em 1876 D. Pedro II fez sua segunda grande viagem para o exterior, começando pelos EUA, onde participaria das comemorações do Centenário da Independência. Esteve em Filadélfia, onde se entrevistou com Graham Bell, recebendo de presente o seu estranho invento: um telefone. Em seguida passou por Niágara, percorreu quase todos os estados americanos, e após boa parte do Canadá. Dali foi para a Europa. Na Alemanha realizou a clássica viagem pelo Reno, seguiu para Bayerouth, o templo da ópera wagneriana, para ver à primeira execução de “O Anel dos Niebelungos”. Em Paris encontrou-se com Victor Hugo, e foi recebido na Academia de Ciências de Paris. Nesta viagem esteve em Portugal, Espanha, Itália, Inglaterra Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca, Suécia, Rússia, Turquia, Grécia, Líbano, Síria, Palestina, e Egito, pela segunda vez.
A Histórica visita de D. Pedro II ao Líbano, no período de 10 a 16 de novembro de 1876, embora tenha se caracterizado como uma viagem científica, de turismo e reconhecimento, é considerada a primeira visita oficial, de uma longa série de outros contatos posteriores, entre os dois países. Vindo da Europa, passando por Atenas, na Grécia, D. Pedro II se maravilhou diante das monumentais montanhas libanesas, descrevendo-as, para seu amigo Gobineau, da seguinte forma: “A partir de hoje começa um mundo novo. O Líbano ergue-se diante de mim com os seus cimos nevados, seu aspecto severo, como convém a essa sentinela da Terra Santa”. Encontrando-se com autoridades civis, religiosas, e a intelectualidade local, foi magnificamente bem recebido, impressionando-se, sobremaneira, com a operosidade do povo libanês. Num desses encontros, manifestou expressamente o desejo de ver, no Brasil, o maior número possível de libaneses, prometendo-lhes proteção e assegurando-lhes, caso decidissem emigrar, um retorno próspero, feliz e com muitas riquezas. A promessa foi rigorosamente cumprida quando, a partir de 1880, o país começou a receber as levas de libaneses, dando-lhes todas as facilidades possíveis. Consta que o Imperador os recebia em Palácio como um pai o faria, fato que certamente justificaria o grande amor que os libaneses, em geral, têm pelo Brasil, sua segunda pátria.
O Imperador desembarcara no Porto de Beirute acompanhado de sua esposa Dona Tereza Cristina e de uma comitiva de cerca de 200 pessoas (damas, barões, viscondes), do navio “Áquila Imperial”, de bandeira brasileira, como o primeiro ponto da viagem que depois se estenderia a Jafa (então Palestina), até o Egito. Na ocasião, o Líbano era um pequeno emirado, com relativa autonomia, pertencente ao Império Otomano, submissão essa que vinha desde os idos de 1500 e encerrou-se em 1918, final da I Grande Guerra. Além disso, a semi-autonomia era garantida pelas grandes potências européias (Inglaterra, França, Rússia, Prússia e Itália), de acordo com o Protocolo de Constantinopla, datado de 9 de dezembro de 1861. Estruturada como Província-Geral, ou “Mutassarrifat” (1860-1918), era administrada pelos governadores-gerais ou “mutassarrifs” nomeados pela “Sublime Porta”, designação alusiva ao Governo Otomano Central.
Conhecedor dos costumes e idioma locais, D. Pedro II conheceu toda a cidade de Beirute e uma boa parte do país. Grande porto marítimo do Mediterrâneo, ela se constituía na encruzilhada entre o mundo ocidental e o oriente, com intensa atividade nos meios de comunicação, transportes e centro universitário. Cultor da pesquisa histórica, o Imperador percorreu os bairros antigos, a Igreja de São Jorge (greco-ortodoxa, construída em 1767, e a mais antiga), a Igreja de São Luis dos capuchinhos, e a mesquita do Serralho. Conheceu também algumas cidades milenares como Junieh, passando por Nahr Al-Kalb, com suas lápides antiqüíssimas, Bkerke (sede do Patriarcado da Igreja Maronita) e, em seguida, visitou o chefe religioso-político do Líbano, o Patriarca Boulos Massad.
De volta a Beirute, visitou o Colégio Protestante Sírio (fundado em 1866 e que mais tarde transformou-se na Universidade Americana de Beirute), o Colégio Francês dos Jesuítas (fundado em 1875 e que depois se tornou a Universidade Saint Joseph) e muitas outras instituições. Encontrou-se com os grandes mestres das ciências e da literatura libanesas, principalmente com um dos principais gramáticos da língua árabe, Ibrahim al-Yazigi, ocasião em que lhe foram ofertados vários livros ricamente ornamentados, hoje pertencentes ao acervo do Museu Imperial de Petrópolis. Visitou o eminente professor Cornelius Van Dyck, missionário protestante, holandês de origem, norte-americano de nascimento e libanês de pátria, que emigrara para o Líbano em 1840. Grande arabista, astrônomo e médico, estudou medicina em Springfield e Jefferson (Filadélfia – EUA), estudou árabe com o cheique Youssef al-Asir, fundou com Boutros al-Boustani a Escola de Abaye, foi reitor do Colégio Protestante Sírio, fundou a Faculdade de Medicina e o Observatório de Beirute. Traduziu a Bíblia do hebraico e do grego para a língua árabe, tendo escrito inúmeros livros. D. Pedro II foi por ele carinhosamente homenageado, recebendo de presente a coleção completa de suas obras. Fato curioso devidamente registrado, à época, é que o Imperador assistiu uma das aulas de Van Dick na Universidade, sentado entre os alunos.
Nova excursão fora de Beirute, agora visitando Baabda e o Governador-Geral Rouston Pacha Mariani, conversando sobre generalidades do país e suas impressões sobre a região. Em seguida prosseguiu viagem em direção ao Vale do Bekaa, passando pela cidade de Chtaura.

O transporte na época era feito em carruagens pertencentes à “Sociedade Otomana da Estrada de Beirute a Damasco” (fundada em 1861), cujo trajeto incluía diversas paradas, principalmente em Chtaura e Sofar. Atravessou o Vale em direção a Baalbeck, passando por Zahle, deixando-se encantar pela paisagem, pelas plantações e pela fertilidade da terra e pelo Rio Bardawni. A comitiva se movimentava juntamente com a escolta de um grupo de soldados, cujo líder portava uma longa lança com estandarte verde-amarelo. Na passagem, D. Pedro II teve a oportunidade de conversar com muitos dos camponeses que curiosos assistiam o cortejo, falando-lhes do país que representava, onde já se encontrava um pequeno número de libaneses, procedentes do Egito e da Europa. Nessa ocasião, ficara vivamente indignado com as precárias condições do ensino na região, dando ensejo a fazer a contribuição-doação de 15.000 francos, em benefício de sua melhoria, depositado no Banco Otomano de Beirute, atual Banco da Síria e do Líbano.

A passagem de D, Pedro II pelo Vale do Bekaa repercutiu, por muitos anos, nas lembranças da população de toda a região, do qual falavam sempre com muito afeto, referindo-se a ele como o simpático Imperador filósofo, simples e amigo da gente simples. Não é sem motivo que a maior parte dos emigrantes libaneses para o Brasil partiram do Vale do Bekaa, entusiasmados com a sua promessa. Aliás, uma das antigas ruas de Zahle, que conduz ao Rio Bardawni, foi chamada de Rua Brasil. Mas o primeiro grupo partiu da localidade de Sultan Yacoub, em 1880.

A viagem de D. Pedro II recebeu dos jornais e revistas da época, comentários os mais diversos, a exemplo do que se segue:
... O imperador, após visitar a Europa (...), chegou a Beirute, onde permaneceu alguns dias, visitando colégios e hospitais. Naquele momento estávamos na Faculdade de Artes, Ciências Naturais, Matemáticas e Astronomia do Colégio Sírio. Seu diálogo conosco foi sobre as ciências e os livros modernos que adotamos para o ensino. Assim descobrimos nele um profundo conhecedor de ciências e das novas edições sobre o assunto. E, no momento em que dissemos haver adotado os livros de Robson para o ensino da matemática, ele respondeu que fizemos a melhor escolha, por ser melhor que tais e tais autores, e o mais utilizado nas escolas. Em seguida explicou os motivos de tal preferência. Ele viu a revista “Al-Musktataf”, observou seus artigos e solicitou os números já publicados até o momento. Encorajou-nos a continuar a publicação e disse: 
 
devo estudar melhor a língua árabe para poder conhecer todo o conteúdo’. Depois, visitando o Colégio, encontrou-se com o nosso Professor Dr. (Cornelius) Van Dick, dizendo: 
 
Não preciso que ninguém apresente este honrado doutor. O senhor já é bem conhecido por mim, já escutei falar muito dos seus conhecimentos e profunda dedicação. Queria mesmo encontrar-me com o senhor para conhecê-lo pessoalmente, da mesma forma que já tive a oportunidade de conhecer teus colegas, os cientistas’.
Na hora de despedir-se (do doutor), perguntou se poderia obter uma de suas “Classificações de Ciência” para então decorar sua biblioteca. Nosso professor ofereceu a Sua Majestade.
Foi assim o tratamento dispensado aos estudantes. Vimos os cônsules, os generais e outros homens de política virem diante dele com grande respeito. Quanto a ele, não se interessava por aqueles como se interessa pelos mais simples e pelas pessoas que aspiram e dedicam-se aos estudos (...)” — e o artigo continua a discorrer sobre seu caráter pessoal. (Publicação do “Al Muktataf, de 1º. De março de 1877, volume 16, número 6, páginas 266-271. Revista de caráter histórico-literário, fundada em Beirute em 1876 pelos diretores Yacoub Sarrouf e Farés Nimr. Em 1883 a revista foi transferida para o Cairo, Egito).
Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat
 
Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat – Nascido em Duas Barras(RJ), é descendentes de famílias portuguesas, libanesas e suíças. Economista aposentado do Banco Central do Brasil, foi diretor de empresas governamentais brasileiras no exterior. É membro da ACADEMIA FRIBOURGUENSE DE LETRAS – AFL, da SOCIÉTÉ FRIBOURGEOISE DES ÉCRIVAINS – SFE, (de Fribourg, Suíça), da SOCIÉTÉ D’HISTOIRE DU CANTON DE FRIBOURG (Suíça), e membro do CBG-COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA.


Fonte: ”As viagens de D.Pedro II – Oriente Médio e África do Norte, 1871 e 1876 – Roberto Khatlab.

Um comentário:

  1. SRS. ONTEM O PROGRAMA DE LUCIANO HUCK VISITOU O LIBANO E FIQUEI SURPRESO COM A INFORMAÇAO DA DA POR UM HISTORIADOR LOCAL SOBRE AS VIAGENS DE D.PEDRO II. PESQUISANDO NO GOOGLE ENCONTREI ESSA MATERIA DESTE JORNAL LITERÁRIO. EXCELENTE DESCOBERTA FACE AOS DETALHES INCLUSOS. SOU FRIBURGUENSE E DESCONHECIA A EXISTENCIA DESTA ACADEMIA. PARABENS

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